ENTREVISTA: Alexis Marshall, do Daughters

Alexis Marshall no Fabrique em São Paulo
Em ação no Fabrique, em São Paulo (Foto: Fernando Yokota)

por Nilo Vieira

Quem perdeu o Daughters ontem (12/05), em São Paulo, pode lamentar. Não chegamos nem na metade do ano, mas já dá pra cravar o show produzido pela Balaclava entre os melhores de 2019: a banda estadunidense estava enérgica, e o público presente no Fabrique respondeu. Moshs que eclodiam do nada, stagedives desastrosos, pessoas alucinadas cantando com todo (ou nenhum) pulmão possível e uma maré de gente tentando encostar no chefe de cerimônias da noite, o vocalista Alexis Marshall.

Sua presença é hipnótica por sua imprevisibilidade. Se pendura em estruturas de ferro, agarra outros membros da banda repentinamente, faz performances com saliva e surfa pela plateia. Fora do palco, porém, Marshall é um sujeito centrado e de fala tranquila. Tive a oportunidade de conversar com ele antes do show. Confira abaixo.

Olá, Alexis! Como você está hoje?

Bem. Um pouco cansado, mas estamos indo.

Eu já vi dois shows do Daughters este ano: em Bruxelas, que você afirmou ter sido uma noite estranha, e no festival Roadburn (em Tilburgo), onde a banda parecia estar no auge de seus poderes. Você tem alguma rotina pré-show, até mesmo para entrar no estado mental para as performances?

Não exatamente… faço aquecimentos vocais, troco de roupa aproximadamente uma hora antes e tento não pensar muito sobre. Processar demais me deixa ansioso, aí faço um show desastroso e não consigo mais tirar isso da cabeça. Então tento tratar as coisas naturalmente, sabe, não há diferença entre tocar no Roadburn para 3000 pessoas e depois para 150 pessoas em uma pequena cidade como Ramsgate, no Reino Unido. Estamos só tocando, então o negócio é tentar relaxar.

Vocês tocaram com bandas de estilos diferentes nesta turnê, entre artistas experimentais, hardcore, noise, pós-metal. Há alguma banda em específico com quem gostariam de tocar no futuro?

Temos amigos com quem gostaríamos de viajar, como o Jaye Jayle e a Lingua Ignota. Mas, nossa, poderia citar tantas bandas ótimas…

Talvez o Converge, assim o Jacob Bannon poderia fazer um mashup do Jane Doe com a capa do You Won’t Get What You Want.

(risos) É uma boa. Queria fazer uma turnê com o Danzig também, pra misturar os chifres e dentes daquela caveira clássica com o nosso álbum.

Algumas das canções gravadas na sessão de 2015 foram retrabalhadas para o álbum. Como as músicas descartadas soavam, dada a variedade de sons encontrada no LP novo?

Trabalhamos nelas por um tempo, para termos noção de onde estávamos indo… mas, às vezes, você precisa operar em prazos curtos de tempo e fazer escolhas. Acho que não as aperfeiçoamos – acho que a arte nunca é perfeita -, mas creio que foi tempo o suficiente para que o que entrou no álbum soasse incompleto ou apressado.

Colocar “City Song” como abertura do álbum soa como uma grande exclamação, já que é a música mais lenta que o Daughters já fez. No entanto, é uma das poucas que não foi tocada ao vivo, mesmo com o Nick (Sadler, guitarrista do grupo) tendo elaborado um pedal (Empty Glass) com a Fuzzrocious para conseguir aquele som cheio de drones.

É que não temos muito tempo para ensaiar, já que vivemos em diferentes partes dos EUA. Sentimos que “City Song” precisava de muita atenção, e como também temos músicos de sessão na turnê – como o Chris, do Metz, que está tocando seus últimos shows conosco no baixo – não conseguimos achar o tempo para garantir que não faríamos bagunça com a música.

Demo de Glass House, nomeado em referência à “City Song”. As duas tiragens esgotaram rapidamente no site da Reverb, vendedor exclusivo do pedal

“Satan in the Wait” já é sua música mais executada nas plataformas de streaming. Sei que você não é de discutir política, mas há uma interpretação bem aceita no site Genius sobre, e que diz que se trata de “uma narrativa retratando a ascensão do ódio e extremismo no mundo”. O que acha disso?

Se é no que as pessoas querem acreditar, por mim está ótimo, não direi a ninguém o que pensar. Quer dizer, eu a escrevi, mas a partir do momento que ela foi lançada, já não é mais minha. Não vou dizer a ninguém como se sentir ou interpretar uma canção, é parte da diversão.

Não sei o quanto você gosta dele, mas lembro do David Lynch afirmar o mesmo sobre seus filmes.

É, David Lynch é um cara interessante… (risos)

“Less Sex” foi um grande passo na evolução sonora do Daughters. É um som bem cristalino, quase Depeche Mode, cujas letras parecem abordar um vício – e o título gera certa ambiguidade pro contexto. Quanto disso foi influenciado pela sua recente sobriedade? Costumavam te retratar como um cara barra pesada, nesse sentido.

(risos) Sugestivo, certo? De fato, tive vícios, problemas e coisas assim, e isso se reflete no conteúdo lírico às vezes. Mas, novamente, não direi às pessoas como se sentirem sobre as coisas.

“The Reason They Hate Me” é um recado direto para críticos de arte. Não existe certa ironia no fato da música integrar seu disco mais aclamado até aqui?

(risos) É, finalmente recebemos alguma atenção. Mas não é exatamente um ataque à crítica ou os críticos em geral, é mais sobre um artigo em particular que me incomodou. Se crítica for feita direito e as pessoas forem sérias, não há nada de errado.

Inclusive, o Brian Cook (ex-Botch e Russian Circles) escreveu um livro sobre vocês há um tempo e mandou a proposta para a série 33 1/3, que é respeitadíssima na crítica musical.

Sim, ele é um grande amigo e escreveu algo em torno de 13 ou 14 capítulos… e então percebeu que talvez estivesse em tom pessoal demais, e que também não acabamos ainda, então não queremos dizer coisas que possam ofender ou chatear pessoas com quem nos importamos. Talvez quando acabarmos revelemos tudo.

Ainda sobre a aclamação, como foi ver o Krist Novoselic elogiando o Daughters? Vocês já fizeram covers pra dois tributos ao Nirvana, imagino que sejam grande influência.

Surreal. Houve até um momento de confusão quando recebemos a mensagem do nosso management que ele havia tuitado aquilo. Foi legal. Não dá se apoiar nisso e deixar subir à cabeça. Ele é o Krist Novoselic, mas é só um cara com opiniões… mas é o Krist Novoselic! (risos)

Domingo é dia de missa! (Foto: Fernando Yokota)

Já que você disse pra Balaclava que não acredita que o rótulo de noise rock contemple o Daughters, o que achou de pegar o segundo lugar na lista de melhores álbuns de metal, na Rolling Stone, ano passado?

Foi maneiro estar lá. Nós nunca aparecemos em listas, ainda mais em publicações como a Rolling Stone. É um feito, e acho que é algo bom para mostrar ao nosso pessoal…pois você toca música por vinte anos, e eles se perguntam quando você vai arranjar um emprego de verdade e parece desperdício de tempo para as pessoas de fora. Então é algo que nos valida, e é ótimo poder dizer para a minha mãe que estamos na Rolling Stone.

Na lista de metal! Parece que o Manowar vai tocar por mais uns anos, talvez vocês tenham chance de abrir pra eles ainda…

Vamos tocar com eles no Hellfest, em junho, na França! Adoro Manowar, ouço desde quando tinha sete anos.

As letras de You Won’t Get What You Want revezam entre a perspectiva de primeira e terceira pessoa ao longo do repertório. Acho curioso que “Ocean Song” começa com o único nome próprio mencionado no disco inteiro, Paul. Sei que você trabalha com metáforas, mas também há essa ligação interessante entre essa música e “The Flammable Man”: nesta, o eu-lírico não vive mais perto do oceano por medo da maré, e na “Ocean” ele termina buscando o oceano além das ondas. Um tom cinematográfico…

(risos) Nunca havia pensado nisso até você mencionar. Digo, tudo são histórias, eu não apenas canto músicas. É diferente, pois não preciso levar a melodia em consideração no mesmo ponto em que o resto da banda o faz. Então posso ter uma abordagem mais literária, já que não há restrições ou exatamente um formato. É só uma questão de brincar com ideias, é o que faço.

Falando de cinema, é bacana que a produção capturou esse som repleto de camadas, que coloca o ouvinte dentro da cena, e o clipe de “Less Sex” é cheio de imagética. Mas o encarte físico é apenas espaços em preto. Foi proposital, pra fazer as pessoas focarem 100% na música ou vocês apenas não ligam?

Não! Na verdade, não vi mais o layout desde que o disco saiu. Se não me engano, o gatefold é preto, mas tem um encarte interno.

Sim, com as letras.

Isso, insisti para que as letras fossem impressas para o disco – é minha contribuição. Sempre gostei de ler os encartes para saber o que diabos as pessoas estavam falando, é por isso que me interessei por escrita, em primeiro lugar. Antes de me aprofundar em literatura, lia o que tinha dentro das minhas fitas k7 do Mötley Crüe.

O interesse no Daughters cresceu bastante. Como a Hydra Head Records não funciona mais como gravadora em tempo integral, vocês pretendem relançar os discos anteriores por contra própria?

Sim, conversamos sobre isso por um tempo. Vamos trazer tudo de volta à vida, somos muito questionados sobre nossos outros álbuns.

Sinto que há certa contradição no álbum anterior ser homônimo, já que a banda estava ruindo. Foi dito que o nome You Won’t Get What You Want (você não terá o que quer) tinha a intenção de aviso, em relação às expectativas das pessoas, pois não haveria uma exata definição do que é “a música do Daughters”. Sei também que você é um grande fã dos Rolling Stones, então me lembrei do refrão “you can’t always get what you want/ but if you try sometimes you just might find/ you get what you need” (você nem sempre pode conseguir o que quer, mas se tentar, perceberá que consegue o que precisa). Houve alguma inspiração por aí? Porque parece uma filosofia coerente para o álbum novo.

(risos) Fico feliz que o lançamos. Foi bom para nós, como pessoas, como artistas – nos reunirmos e trabalharmos novamente. Nós deixamos as janelas e a porta abertas, e basicamente esvaziamos a casa… coisas foram deixadas incompletas, então não tínhamos certeza de que poderíamos nos reunir, lançar um álbum, que ele seria assim e fim de história. Percebemos que havia algo além, e queríamos ver até onde iria. Somos um grupo complicado, nem sempre nos damos bem. Mas acredito que esta é uma faceta interessante das nossas personalidades e nossa relação dentro da banda. Não é fácil, e gosto disso. Não quero que seja fácil.

Te vi afirmando que o Daughters já está compondo para um próximo álbum. Sente que existe maior pressão, já que estão na crista da onda agora?

Sim, mas aí voltamos ao ponto de não pensar demais. Podemos colocar pressão em nós mesmos e tornar as coisas difíceis. Porque as expectativas das pessoas… bem, pertencem a elas. Se nos preocuparmos, vamos continuar escrevendo o mesmo disco. Poderíamos estar reescrevendo o Canada Songs de novo e de novo, por sei lá, quantos anos fazem que estamos juntos, uns 20? E não queremos. Não soa interessante para nós. Pessoas se decepcionam, mas bem… se você quer ouvir música do tipo A, vá e ouça. Mas não insista que permaneçamos naquele mundo para sempre, só pra te agradar. São nossas vidas, vamos fazer o que nos deixa felizes.

Imagens de dor e sofrimento: capa de You Won’t Get What You Want, a obra-prima do Daughters, feita pelo artista Jesse Draxler (Foto: Reprodução)

Li que você gosta de acompanhar autores de poesia ruim no Instagram. Traduzi dois poemas de um ex-presidente brasileiro. O primeiro se chama “Radicalismo”: “Não! / Nunca mais!”.

(silêncio de perplexidade) Isso é um poema?

Sim, e este outro se chama “Pensamento”. “Um homem sem causa / Nada causa”.

Parecem pensamentos que surgem quando você está no chuveiro, ou sentado na privada. Todo mundo tem dias ruins, assumo. (risos)

Algo mais que queira dizer para o público brasileiro?

Bem, só estamos muito felizes de estar aqui e em lugares que jamais imaginaríamos. O que diabos estávamos fazendo na Rússia, por exemplo? Se não fosse pela banda, isso jamais seria possível. É algo incrível.

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