ENTREVISTA: Fernando Pellon

Deu no jornal: capa de um legítimo disco maldito (Foto: Reprodução / Discogs)

Tragédias e humor nunca foram estranhos ao samba, mas o único LP da Malta de Areia segue chocante. Em nove canções, temas como suicídio, desilusões amorosas, acidentes de trânsito são abordados com um humor ácido: “Quando soube que estava canceroso / Ergui louvores ao criador“, diz a abertura em “Porta Afora”. Como aditivo, trata-se de um registro lançado em plena ditadura militar – e o disco, maldito por natureza, se tornou uma pérola oculta que segue sendo (re)descoberta por gerações de loucos. Conversei com Fernando Pellon, compositor e líder do coletivo sobre censura, o status de raridade e muito mais. Desce aí!

Pra começar, gostaria que você contasse como se formou o grupo Malta D’Areia.

A Malta da Areia foi um coletivo de compositores formado no começo da década de 80 e que inicialmente se reunia na Ponta da Areia, em Niterói. O objetivo do grupo era pesquisar, discutir e criar música popular brasileira. A atmosfera geral era difícil, pois a censura federal ainda causava muito embaraço à produção artística. A rapaziada era constituída por mim, Roberto Bozzetti, Paulinho Lêmos, Fátima Lannes, Tunico Frazão, Renato Calaça, Cássia Bonturi, Paulinho Leitão e Luís Maduro.

Além do projeto do Cadáver pega fogo durante o velório, a Malta da Areia fez o curta metragem É Miquelina, Minha Mulher, o show “João Maus Costumes” e o musical infantil para teatro “Onde é que cabe um circo”. 

Havia preocupação acadêmica no coletivo? 

Estritamente falando, não havia tal preocupação. O que ocorria era uma enorme predisposição para aprender em grupo, com leituras coletivas do Balanço da Bossa e Outras Bossas do Augusto de Campos, em contraposição aos textos de José Ramos Tinhorão sobra música popular brasileira. Intermináveis audições dos discos de Jards Macalé, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Orlando Silva, Gal Costa, Lupicínio Rodrigues, João Bosco/Aldir Blanc, Cristina Buarque, Araci de Almeida, Adoniran Barbosa, Walter Franco, Chico Buarque, Língua de Trapo, Premeditando o Breque, Rumo, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, e outros tantos. Quando necessário, Augusto dos Anjos, Ezra Pound e Maiakóvski. Antes de fazer o curta metragem, riquíssimas conversas com Joaquim Pedro de Andrade.

É interessante você ter mencionado nomes da vanguarda paulista. Vejo muito humor no Velório, apesar (e/ou junto) de toda a tragédia. Foram influência direta, neste sentido?

Você está certo em sua análise: o ponto comum de interesse foi o humor. Eu sempre procurei basear minhas composições em clichês pré-bossanovistas, tanto na parte de confecção das letras como nas soluções musicais (ou seja, com assumido “mau gosto”), para surpreender o ouvinte com uma poética inusitada e transgressora, porém “comedidamente” engraçada. 

A Malta da Areia acompanhava com muita atenção o trabalho de vanguarda desenvolvido em São Paulo. Nós tínhamos uma ligação muito estreita com o Língua de Trapo e acompanhávamos com lupa os movimentos do Rumo. E o interesse era recíproco, tanto que o Cadáver Pega Fogo Durante o Velório chegou a ser distribuído pelo selo fonográfico Lira Paulistana

Essa parceria se materializou em três momentos. Em primeiro lugar, no convite a mim formulado pelo Língua de Trapo para dar uma canja no show de lançamento do LP Nova Retórica, realizado no Teatro Ipanema em 1985. Os outros cariocas convidados foram o grupo “O Espírito da Coisa” e a cantora Clara Sandroni. Interessante registrar que eu praticamente estreei nos palcos do Rio de Janeiro como um “cantor cego”, acompanhado ao violão pelo saudoso Lizoel Costa.

Depois, na participação do Laert Sarrumor como protagonista no curta metragem experimental “É Miquelina, minha mulher”, com roteiro e direção de Fátima Lannes, rodado em 1987. É uma narrativa musical, com apenas um diálogo, que conta a história de um homem que sonha ter morrido e que é enterrado num cemitério moderno pela mulher, contrariamente a seu desejo. O trabalho ganhou em 1986 o prêmio de melhor roteiro no Concurso Nacional de Roteiros Kodak/Curt e Alex. Em 1987, foi exibido na 11ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo International Film Festival. Por fim, na inclusão do samba “Carne no Jantar”, gravado no “Cadáver Pega Fogo Durante o Velório”, no repertório do Língua de Trapo na forma de um blues.

Trecho do curta-metragem É Miquelina, minha mulher, reutilizado como videoclipe

Essa relação de cumplicidade com a estética paulistana surgiu novamente em março de 2018, com a apresentação especial no Sesc Belenzinho, em comemoração aos 35 anos da gravação do “Cadáver Pega Fogo Durante o Velório”. Tal participação fez parte do projeto “Álbum” do Sesc, que remonta a memória da música brasileira por meio de registros fonográficos que ajudaram a consolidar sua história. A produção do show foi de Fábio Giorgio, que há seis anos vem tomando parte do citado projeto. A direção musical foi de Jayme Vignoli. No palco, tive a companhia da cantora e compositora Fátima Guedes e do parceiro Paulinho Lêmos, além dos cantores e compositores paulistas Douglas Germano e Marcelo Pretto, abrindo uma frente fantástica e renovada de colaboração com o meio musical de São Paulo.

Já que você mencionou o “comedidamente”: o quanto de inspiração verídica essas letras possuem?

Tudo no disco é verdadeiro, a começar pelo título (que foi a manchete do jornal carioca Última Hora do dia 22/01/1982). A partir dela, começamos na Malta da Areia a colecionar mais manchetes, que depois apareceram no projeto gráfico do Cadáver. A inspiração veio de Torquato Neto: “Organizar arquivos da imagem brasileira desses tempos, cada qual guardando seus filminhos, até que o filme todo esteja pronto. Planos gerais, retratos da paisagem geral, arquivos vivos, as fachadas, os beijos, as punhaladas: documentar tudo, podes crer: é isso.”.

Samba gore: encarte do álbum (Foto: Reprodução / Discogs)

Sobre essa verdade escancarada: muito se fala de como artistas como Chico Buarque e Tom Zé driblavam a censura vigente na época através de metáforas. Mas você literalmente argumentava contra os censores…

O Cadáver Pega Fogo Durante o Velório era um projeto de tudo ou nada. Jogada deliberada de alto risco. No fim das contas, não pude divulgar o disco junto à imprensa ou emissoras de rádio por mais de nove meses. Desde o fim da produção, em março/1983, fiquei às voltas com recursos, requerimentos e protocolos, num ir e vir interminável na censura federal, lidando com uma burocracia kafkaniana. A via crucis terminou em Brasília. Foi necessário preparar um documento para envio ao Conselho Superior de Cultura. A defesa de tal recurso derradeiro ficou a cargo de Ricardo Cravo Albin, que obteve a liberação do disco na reunião de dezembro do mesmo ano.

O álbum permanece como o único do coletivo. Por quê? 

Depois do lançamento do Cadáver Pega Fogo Durante o Velório em 1984, A Malta da Areia se dedicou ao show “Maus Costumes”, ao curta-metragem É Miquelina, Minha Mulher e ao musical infantil “Onde é que Cabe um Circo?”. Depois disso, deixei o Brasil em 1987 para o doutorado nos Estados Unidos, retornando ao Brasil em 1990. Em 1988, Paulinho Lêmos se mudou definitivamente para Portugal. Nosso coletivo já não existia mais nessa época. 

O disco segue muito raro. Existe previsão para reedições?

É um disco assumidamente clandestino; daí o uso na capa do formato de cartaz dos procurados pela repressão durante a ditadura militar. Foram produzidas originalmente 1000 cópias em vinil. Posteriormente, foi lançado em CD com outra capa, sem alarde, em tiragem muito pequena. Como não há planos para relançamentos futuros, sua existência subterrânea será duradoura. O fato de ter se tornado uma raridade é gratificante, pois atesta sua atemporalidade.  

Mudar a capa foi mero artifício estratégico?

A nova capa para a prensagem em CD fez parte de um experimento na direção de um distinto objeto estético, ou seja, uma busca de representação em outra mídia. O estudo foi conduzido pelo arquiteto e artista multimídia paulistano José Wagner Garcia e pela arquiteta e designer Luciana Orvat (hoje no estúdio paulistano de design gráfico Clarabóia). Este trabalho criou insights para a essência da identidade visual dos álbuns que lancei posteriormente, Aço Frio de um Punhal (2010) e Moribundas Vontades (2016), ambos com a arte gráfica elaborada pelo Estúdio Clarabóia. 

Raridade dentro de raridade: capa da versão em CD (Foto: Fernando Pellon)

Curioso que esta nova capa retrata como um disco solo seu, apesar de conservar a capa original.

O projeto da nova capa para prensagem em CD, elaborado na década passada, foi na verdade um resgate do limbo em que o Cadáver Pega Fogo Durante o Velório se encontrava desde os anos 80. Isto ocorreu porque, após sucessivas menções na internet, voltei a ser reconhecido como compositor popular. Assim, a busca por um objeto estético “atualizado” realmente soou como o renascimento de um disco solo. Na época, já não existia mais a Malta da Areia. Também não trabalhei mais com o Nadinho da Ilha e a Cristina Buarque. Creio ser esta a explicação. 

Ainda sobre a capa, é de certa ousadia que o “release” de Tárik de Souza faça parte dela.

No começo da década de 70, Torquato Neto, em sua coluna no jornal carioca Última Hora, listava as causas da asfixia da música popular brasileira de então: o sistema geral de produção e divulgação, a indústria criada do gosto médio burro brasileiro, a censura, o medo, a falta geral de informação e caráter. Uma década depois, por ocasião do lançamento do Cadáver Pega Fogo Durante o Velório, o panorama geral não havia evoluído. Daí o tom de confronto de Tárik de Souza no texto de capa do disco. Contra a diluição, o clamor da coragem forçando a barra.

Neste aspecto, vale voltar ao sequenciamento do disco. Após o miolo com mais instrumentos, o samba de roda em “Flores de Plástico” ensaia um clímax, mas acaba abruptamente. Foi algo pensado?

Por um problema técnico, o cavaquinho “sumiu” no fim da música, um efeito indesejado que foi minimizado na mixagem. Como você reparou, o resultado acabou fazendo sentido, como um anticlímax.

Matou a família e foi à lanchonete: Fernando Pellon (à esquerda), Cristina Buarque e Nadinho da Ilha (Foto: Acervo pessoal de Fernando Pellon)

Tem outros causos do período? Parece ter sido complicado…

Pois é, no que diz respeito ao Cadáver Pega Fogo Durante o Velório, a gravação foi realizada em muito pouco tempo e com recursos financeiros escassos (conseguimos uma “janela de oportunidade” a preços módicos no Estúdio Havaí antes do carnaval de 1983). Nessa época, eu já estava empregado no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras (CENPES) e concluindo minha dissertação de mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Eu só podia ir ao estúdio na hora do almoço para pagar os músicos e cantores; assim, quase não acompanhei o trabalho (por exemplo, não tive oportunidade de encontrar pessoalmente o Raphael Rabello durante as gravações). Como eu carregava uma pasta preta tipo 007, fiquei conhecido no Havaí como o “homem da mala”.

Sei que é clichê, mas resguardadas as devidas proporções, você enxerga paralelos daquela época com o presente – em termos artísticos e musicais, em especial no nicho do samba?

Como na época, a aversão ao risco e o medo dela decorrente ainda aparecem como obstáculos à experimentação em música popular brasileira. Isso realça a importância do trabalho de artistas inovadores como Douglas Germano, por exemplo, no nicho do samba. O trabalho resultante de seu encontro com o Kiko Dinucci é de fundamental importância em uma perspectiva evolucionária da música popular brasileira. Nesse contexto, há uma notável interseção com o álbum Besta Fera do Jards Macalé, onde o Kiko Dinucci aparece tanto como parceiro nas composições quanto como produtor musical (o que confere um tom maravilhosamente paulistano ao trabalho). 

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