ENTREVISTA: Duma

Martin “Lord Spike Heart” Khanja e Sam Karugu (Foto: Reprodução)

[ENGLISH BELOW!]

por Nilo Vieira

Para quem gosta de acompanhar lançamentos fora da curva, poucos selos são tão recomendados como o Nyege Nyege Tapes. Após registros essenciais de cenas na Tanzânia, Mali e Uganda, a bola da vez é o duo queniano Duma, cuja estreia homônima saiu em agosto. A sonoridade peculiar de Martin e Sam é eletrônica, mas enraizada no metal extremo (ambos tocavam em bandas como o Lust of a Dying Breed) – o que só confirma o quão ampla e subestimada são as vanguardas do continente africano. Conversei com a dupla sobre esses e outros assuntos.

Vocês eram membros de bandas com abordagens modernas, mas nada comparado ao que o Duma faz. Quais foram as inspirações para esse direcionamento?

Sam: A inspiração foi mais sobre fazer algo novo, pois o metal está aí há tanto tempo e nem sempre possui frescor – especialmente por aqui. Queríamos experimentar mais, procurar sons que mostrassem que a África poderia ser um bom lugar para esse recomeço.

Martin: Tocamos em bandas por uns dez anos, e era sempre a mesma coisa, bpm parecido e tal. Queríamos ir além, usar nossa criatividade e mostrar algo que é, ao mesmo tempo, familiar e estranho.

Como vocês definiriam sua música?

S: Simplesmente metal experimental, com um pé no eletrônico. Experimentamos com tudo que ouvimos….

M: Caos organizado!

A sonoridade mais próxima ao Duma que consigo pensar é o Deaf Kids. Ambas possuem tons barulhentos, industriais misturados com percussão ancestral. É uma relação peculiar, música descrita como futurista com esse eco do passado.

S: Nunca os ouvi, mas gosto das Rakta, por exemplo, que soa tradicional e futurística… e creio que a principal razão é que nós não conseguimos enxergar o futuro de fato, apenas imaginá-lo como um filme sci-fi ou coisa do tipo. Acho ótimo que percussão tribal esteja sendo incorporada na música industrial.

M: O passado é o presente, o presente é o futuro e o futuro é o passado: é tudo uma coisa só. Não podemos escapar de nossas origens, está tudo conectado.

Como a atmosfera de Nairóbi influencia a música do Duma? O clipe de “Lionsblood” é sugestivo.

M: É verdade, Nairóbi tem muitos problemas, especialmente econômicos – é uma cidade cara, refém de promessas políticas. Mas “Lionsblood” é sobre iniciação, você despertar e se perguntar “que porra estamos fazendo?”. Sou meio massai, e me inspirei no rito de passagem onde você tem de matar um leão para se tornar homem.

S: O disco todo é sobre como as coisas estão fodidas por aqui. Falta de água, comida, desigualdade social, agora o coronavírus, não sabemos que diabos virá depois… creio que todos que estão fazendo música agora, incluindo sujeitos com canções pop felizes, estão se perguntando o que acontecerá em seguir.

Nesse sentido, os títulos das canções sugerem uma união entre entidades mitológicas e eventos factuais. Poderiam falar mais sobre? Curioso especialmente sobre “Uganda with Sam”.

S: (risos) “Uganda with Sam” foi feita com o DJ Scotch Egg, quando ele veio fazer residência no festival Nyege Nyege em Kampala. Trabalhamos no estúdio, e aí ele salvou o arquivo como “Uganda with Sam”… até pensamos se não devíamos mudar, pois a música é profunda e tal, mas preferimos deixar a piada!

M: Sim, como uma saudação. “Corners in Nihil”, por exemplo, fala sobre a dor interior e o lado escuro da psique que não queremos acessar. “Angels and Abysses” tem um pouco desse contraste mitológico – afinal, pra saber o quão iluminado você é, precisa entrar na escuridão e vice-versa. É mais sobre visões psicodélicas, vozes que sussurram no seu subconsciente e então você alquimizar isso em algo físico para resolver os problemas da vida. A maioria das letras é em suaíli, mas estão traduzidas no encarte.

A melhor capa de 2020? (Foto: Reprodução)

O mesmo pode ser dito sobre a bela capa do disco…

M: A Lola, booking agent do selo, tirou em um mercado em Kampala. Quero que cada um interprete do seu jeito, mas pra mim é sobre o contraste. As trevas, a senhora se escondendo com uma roupa da mesma cor da carne…

S: É uma imagem linda mesmo! E tem também lance das tripas expostas, que é algo que sempre digo: se quer mesmo algo, entregue tudo de si e conseguirá fazê-lo.

Como vocês se interessaram por metal extremo? 

S: Primeiro foi o rock, através de videogames, depois nas rádios e tv, ir em shows, trocar cds com outros metalheads… comecei a tocar guitarra e tocar metal é divertido, em primeiro lugar. E também é música que se encaixa com meu TDAH. Fora a comunidade, você pode conversar sobre qualquer coisa, os shows são sempre legais.

M: Era tudo tão maluco, não acreditava que dava pra tirar aquele som de guitarras, bateria, vocais… e a energia ao vivo é insana, todos no mosh, poeira no ar. É o tipo de música onde me encontrei.

Há discursos de ódio e consciência política quase na mesma medida no meio extremo, aliás.

S: Pois é, não entendo porque existem pessoas que acham que pessoas negras não podem tocar metal quando a raiz de tudo é africana. Acho engraçado quem acha que o hip hop é a música mais negra possível, quando pioneiros como o Afrika Bambaataa samplearam o Kraftwerk, que é branco pra cacete.

O disco esgotou em minutos e foi resenhado por grandes sites. Quais são os planos para o futuro?

M: Ir mais fundo nesta sonoridade, fazer muitos shows e turnês, colaborar com artistas diferentes pelo mundo! É inspirador que o Duma não se encaixe em um único rótulo, então para o futuro… mais arte, expressão!

S: Basicamente o que o Khanja disse, fazer mais vídeos, fazer mais! Eu nem sabia que o The Needle Drop tinha falado da gente…

M: Um salve pro Fantano!

S: Talvez o Duma devesse estar no Twitter. Mas é, agora que vimos nosso alcance, é continuar e ver o que o futuro reserva…

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You were members of bands that had a modern approach, but not even close to what Duma does. What were the main inspirations for this direction?  

Sam: Inspiration was just to make something new, because metal has been there for a long time and doesn’t always sound fresh – specially around here. We wanted to experiment more, search for sounds that could show that Africa could be a good place for this new restart.

M: We played in bands for, like, ten years and it was always the same, similar bpm and stuff. We wanted to go further, use all our creativity and present something familiar and not familiar at the same time.

How would you define your music?

S: Just experimental metal, with a foot on electronics. We experiment with everything we listen…

M: Organized chaos!

The closest sound to Duma that I can think of is Deaf Kids. Both have this abstract, industrial noise blended with ancestral, tribal percussion – and it’s quite peculiar that music described as futuristic still has bonds with the past.

S: Never heard ‘em, but I like Rakta, for example, that sounds traditional and futuristic… I believe the main reason is that we can’t see the future for real, just imagine it like a sci-fi movie or something. It’s great that tribal percussion is being incorporated in industrial music.

M: The past is the present, the present is the future and the future is the past: it’s all one thing. We cannot escape our roots, it’s all connected.

How does Nairobi’s atmosphere, if it does? The “Lionsblood” video is suggestive.

M: It’s true man, Nairobi has a lot of problems, it’s all an economic thing – an expensive city, relying on politics’ promises. But “Lionsblood” is more about initiation, like waking up and asking “what the fuck are we doing?”. I’m half massai, and there’s a rite of passage where a boy has to kill a lion in order to become a man, so I took it from there.

S: The whole record is about how things are fucked up here. Shortage of water, food, social inequality, now we have coronavirus and don’t know what the fuck is next… I believe everyone making music now, including guys with happy pop songs, are wondering what’s coming.

The song names suggest an union of mythological entities and factual events. Could you tell me more about it? Specially curious about “Uganda with Sam”. 

S: (laughs) We did “Uganda with Sam” with DJ Scotch Egg, when he was doing a residence at Nyege Nyege Festival in Kampala. We were working in the studio, and when it was finished he just saved it as “Uganda with Sam”… we thought about changing it, because the song in itself is very deep, but we kept that as a joke too!

M: Yeah, like a hail. “Corners in Nihil”, for an example, talks about inner pain and the dark side of the psyche that we don’t want to dive into. “Angels and Abysses” has a little bit of that mythological contrast, because to you need to face darkness to know how enlighted you. It’s more about visions from psychedelics, voices that whisper in your subconscious, then you alchemize it into something physical and solve the problems in life. Most of the lyrics are in swahili, but translated in the booklet.

And I could say the same about the beautiful cover.

M: Lola, our label’s booking agent, took it in a market in Kampala. I want each one to see it in a different way, but for me it’s about the contrast. The darkness, the lady hiding herself in clothes that look like meat…

S: It’s a beautiful image indeed! And there’s also the thing about the exposed guts, which I always say: if you do want something for real, put everything of you in it then you can do it.

How did you first get into extreme metal? What were the aspects that drew you to such music?

S: First it was rock, through videogames, then watching shows in tv and attending them, trading cds with other metalheads… I started to play guitar and playing metal is fun, and it’s also music that fits with my ADHD. And there’s the community, where you can talk about everything and the shows are always fun.

M: Everything was so insane, I did not believe you could do something like that with guitars, drums, vocals… and the live energy is crazy, everybody’s moshing, dust in the air… I found myself in this music.

The genre is land to both political consciousness and hateful speeches, though.

S: Yeah, I don’t get it when people think black folks can’t play metal, since the root of all comes from Africa. And it’s funny that some consider hip hop to be the blackest music possible, when pioneers like Afrika Bambaataa sampled Kraftwerk, which is white as hell.

The LP sold out in minutes and was reviewed by big sites. What are your plans for the future?

M: Go deeper in this sound, play a lot of shows and tours, colaborate with many artists around the world! That Duma doesn’t fit a single genre is very inspiring, so for the future…. more arte, more expression!

S: I echo what Khanja said, make more videos, make more stuff! I didn’t even knew The Needle Drop mentioned us….

M: Shoutout to Fantano!

S: Maybe Duma should be on Twitter. But yeah, now that we know how far we got, we’ll continue and see what the future holds…

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